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SLG014
Arcade Fire
"Neon Bible " (2007)

 

(por Flávio Seixlack)

Se em 2004 o Arcade Fire foi indiscutivelmente a banda nova mais falada do ano, aparecendo com Funeral em praticamente todas as listas de melhores, chegamos ao início de 2007 com um fato inquestionável: hoje ela é a banda mais importante do mundo pop. Vale lembrar que, antes mesmo de ser lançado, o segundo trabalho dos canadenses, Neon Bible, já carregava nas costas o peso de ser o grande álbum de 2007.

Afinal de contas, em dezembro do ano passado todo o circuito musical começou a se movimentar para seu lançamento. De um lado, tanto crítica especializada, quanto aficionados por música ansiavam a chegada do mês de março. Enquanto a mídia publicava qualquer mínima faísca sobre o grupo e seu novo disco, blogueiros de todos os cantos fervorosamente rezaram para que suas músicas caíssem na rede.

Do outro lado, a banda não fez por menos. Criou um domínio na internet com o nome do disco, contendo informações escassas e misteriosas, enquanto um vídeo em preto e branco circulava pela rede com nada além de imagens de nadadores e um número de telefone. Quem ligou pôde ouvir gratuitamente uma das canções do álbum, aumentando ainda mais a ânsia dos fãs por seu lançamento. Para somar a tudo isso, ecoaram em todo o mundo virtual faixas ao vivo da banda tocando músicas de Neon Bible em lugares pouco comuns, como uma escola em Ottawa e uma igreja em Nova Iorque.

Musicalmente, Neon Bible é, como toda sua promoção pré-lançamento já previa, um álbum que carrega uma nuvem negra e pesada acima da cabeça de seus criadores. Se Funeral era como uma caixinha esquecida em uma gaveta com uma porção de canções tristes, porém cheias de esperança, o segundo trabalho dos canadenses traz um forte sentimento de angústia em cada música, letra e melodia.

O disco abre com a poderosa "Black Mirror", que já anuncia o que vem pela frente: temas obscuros e letras nada otimistas. Por algum motivo, o Arcade Fire e seu frontman Win Buttler definitivamente não estão de bem com a vida. Mas Win é como um bom professor decidido a convencer seus alunos, aqui ouvintes, de que nem tudo são flores. A linda "Black Wave/Bad Vibrations", quinta faixa de Neon Bible , anuncia: "Nada dura para sempre, e é assim que tem que ser / Há uma grande onda negra no meio do oceano / Para mim e para você". Pouco a pouco, o Arcade Fire vai apagando qualquer resquício esperançoso que ainda restava de Funeral .

Como um filho decepcionado, em "Windowstill", o americano acolhido pelo Canadá (Win) fala provavelmente em nome de muitos: "Não quero viver com a dívida do meu pai (...) Não quero mais viver na América". Há também a regravação da excelente "No Cars Go" que, lançada anteriormente no primeiro EP do grupo, aparece ainda mais encorpada e com novo ânimo.

Fechando o cerco, "My Body Is A Cage" começa calma, cresce tímida e explode com todas as orquestrações a que tem direito. Como se os seis integrantes da banda desaparecessem misteriosamente enquanto uma marcha fúnebre os homenageasse à distância, anunciando o fim. Por um segundo é um alívio, que logo se transforma na vontade de novamente ouvir um disco que, na certa, aparecerá de novo em inúmeras listas de melhores do ano. Afinal de contas, não há espaço para ninguém colocar o dedo em nada: nenhuma melodia, letra ou detalhe. Em Neon Bible , o Arcade Fire não apenas supera as expectativas dos que duvidavam que o grupo pudesse fazer um álbum à altura de Funeral , como vai além: entrega uma obra atemporal que o coloca no pódio como a grande banda dos novos tempos.

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